O fio de avó para neta

Quando era pequena, eu sentava-me em círculo com as mulheres da minha família. É uma memória que até há poucos dias nem existia na minha consciência, mas ela existe e agora está bem vívida. A memória de ser pequena, estar na casa da minha avó materna, ser Inverno, termos a televisão ligada e ali ficávamos num pequeno círculo de mulheres a bordar, a fazer crochet ou malha.

Neste pequeno círculo estava eu, a minha Avó e a minha irmã. Às vezes também estavam outras amiguinhas. Passávamos horas naqueles momentos de partilha, em que a minha maior referência de Anciã, a minha avó Isabel, nos ia ensinando como fazermos o ponto certo ou nos certificarmos que as fiadas estivessem alinhadas.

Abríamos moldes, enrolávamos as lãs, fazíamos e desmanchávamos. O que interessava para a minha avó é que acertássemos com o preceito do que estávamos a fazer. E de vez em quando vinha um bolo para adoçar a barriga das netas e das amigas.

Hoje, com 43 anos, recordo-nos nesses momentos que aconteceram com frequência entre os meus 6 e 11 anos. Era Inverno ou chuvia e o tempo pedia-nos recolhimento. Ali ficávamos enroladas nas mantas e com um aquecedor eléctrico para nos potenciar o calor. Em círculo, sentadas no sofá e com a televisão acesa. Às vezes só tínhamos os sons da televisão como banda sonora, mas em silêncio falávamos muito umas com as outras.

Actualmente, tenho a bênção de me sentar em círculo com outras mulheres com bastante frequência. E mais ainda – ainda tenho a bênção de estar com a minha avó materna que, para surpresa minha, e agora quase perto dos 84 anos, voltou a fazer o seu crochet. Vê-la novamente de volta das agulhas e das lãs aqueceu-me ainda mais o coração, pois é essa a imagem que tenho dela desde que me conheço como gente – sempre com as agulhas, linhas ou lãs atrás dela para em qualquer momento mergulhar nesses momentos meditativos.

Estes fios, de avó para neta, ainda hoje são mantidos na minha rotina quase diária. Dá-me especial prazer chegar ao final da tarde, ter a lareira acesa, a televisão ligada e mergulhar num processo criativo, seja ele qual for. Traz-me serenidade, foco e clareza mental. Ajuda-me no equilíbrio interno e percebo que me torna mais bem disposta. Ao ponto de ser completamente territorial com este meu ritual pessoal 🙂

Hoje irei fazê-lo uma vez mais, mas agora consciente que este meu pequeno ritual me conecta com as minhas raízes e vivência desde pequena. Desde o momento em que fui iniciada pela minha querida avó e anciã nas artes manuais e que me acompanham desde então. Mais ainda – que me conecta com a história das mulheres fiandeiras, teleçãs, criadoras, bordadeiras e criativas. E assim sinto-me mais inteira. Mais mulher. Mais portuguesa.

– Isabel Maria Angélica, 4.Mar.2016

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