As coisas são o que são…

Não te culpes nem te desculpes. As coisas são ou não são, e assim têm de ser vistas. – in A Senhora de Ofiúsa

A experiência do ser humano na Terra é inerente ao sentir e ter dor. Sentimos e temos dor e essa acompanha-nos desde que nascemos até que morrermos. E as mulheres são ainda mais vividas nesta questão da dor – elas parem em dor os seus filhos, a alma e corpo doem-lhes a vida toda e morrem em dor.

Contudo, as dores das mulheres forem colocadas no saco da esquizofrenia, bipolaridade e loucura. Nasce assim, a partir da vigência patriarcal de viver na Terra, uma forma de ir transformando as coisas sagradas da mulher em actos de loucura e descompensação.

Assim, de século em século, de vida em vida, nos nossos corpos e almas vamos acumulando experiência de dor (seja enquanto homens ou enquanto mulheres) para chegarmos aqui, ao dia 7 de Novembro de 2014, e vermos num bandeja a profundidade de dor que carregamos. Um processo que está carregado de conceitos, arquétipos, branqueamentos e fugas, pois somos ensinadas que não é preciso chorar, que as meninas devem engolir dores e temos que ser as super mulheres… o tempo todo… porque se choramos ou manifestamos a dor que nos percorre somos catalogadas de descompensadas, meio loucas ou com exclamações como “lá estás tu com essas coisas!”… Aliás, as próprias mulheres são peritas em apontar à outra que “coitada, não bate com a bola toda”, só porque vê a outra em dor.

E passamos então uma vida inteira a experimentar os extremos – anulamos a dor porque queremos corresponder a um parâmetro social e educacional ou vivemos a depressão profunda de uma dor não manifestada que muitas vezes nem sequer sabemos de onde vem. Criamos máscaras e mecanismos para aparentar algo que na realidade não é.

Caminhamos então na expectativa de que alguém nos entenda. Que alguém nos oiça. Que alguém nos receba no colo e apenas para chorar, sem mais… sem conceitos, arquétipos ou branqueamentos. E quando finalmente isso surge no âmbito de um círculo ou de partilhas, nem sempre conseguimos aceitar incondicionalmente a experiência da transcendência da dor. Ficamos divididas entre a liberdade de podermos sublimar, confrontando a vítima que foi alimentada por séculos de alimento energético umbralino, ou deixamos-nos levar ainda pelo magnetismo que essa zona de conforto nos pede.

Perante a perspectiva de rendição e entrega da compreensão da dor, teremos então duas opções mais imediatas – acolher a perspectiva da cura em amor para a transcendência da dor, sabendo que caminhamos para algo desconhecido, ou acolher viver a perspectiva de que a dor e o seu culto é um lugar de segurança, pois já é conhecido. São duas opções totalmente distintas como ponto de partida e chegada e é importante compreendermos isso, de forma lógica, racional e até emotiva e visceral.

O culto à dor é aquele íman que nos puxa para o umbral negro da confusão dolorida em que rodopiamos sem fm no “e se”, “será que”, “se calhar”. Perpetuamos o discurso do “vamos lá a ver se consigo”, perpetuando o registo do culto à dor que alimenta uma vitimização subtil que ao mesmo tempo é manipuladora e carrasca. Acima de tudo, de nós mesmas e que se encaixa nas outras mulheres como fios invisíveis e quase imperceptíveis. O culto à dor é o que fazem os mexicanos na celebração da Páscoa, em que simulam o que Jesus terá passado

A transcendência da dor é a libertação. Sabemos que choramos e confrontamos a dor nas perspectiva real e efectiva de a libertar. A dor dói ao entrar e também dói ao sair. Ponto. E não vale a pena branquear este facto, tal como não vale a pena branquear o parto em que uma mulher prefere receber uma epidural para não sentir dor num dos momentos mais profundos e iniciáticos para si e para um bebé que vem ao mundo.

Sim, a dor faz parte das nossas vidas que se manifestam em experiências na matéria e a escolha é totalmente nossa sobre o que queremos fazer com ela. Ponto. E aqui reside a real VERDADE que desejamos assumir definitivamente para as nossas vidas. Ponto. E a partir dessa verdade virá o amor, a paz, a alegria, a celebração que também trarão a consciência de dor, tristeza, raiva, etc. Mas estas já não serão âncoras de existir. Serão sim pontos de cura a tocar.

A alma acumula experiência há milhares de anos. Não podemos acreditar levianamente que fomos apenas almas boazinhas. Contudo, a alma também acumula dons e à medida que nos libertamos da dor, somos confrontadas que temos ferramentas (dons) de transformação e alquimia. Podemos insistir e fazer de conta que esses dons não existem e continuar a perpetuar o discurso e sentir de “vamos lá a ver se consigo”. Mas isso será hipócrita e desvirtuar um trabalho que literalmente nos sai do sangue, suor e lágrimas. A todas, sem excepções.

Portanto, não te culpes nem te desculpes, pois as coisas são o que são. E quanto mais lineares nos tornamos nesta forma de assumir a verdade e a vida, mas lineares e menos complicadas nos tornamos em lidar com os caminhos da dor que queremos que se tornam em caminhos de transcendência e liberdade. E isto não se vive nem na mente (que mente) nem no espírito. Vive-se nas emoções e no corpo.

.: Texto escrito a 7 de Novembro de 2014 por Isabel Maria Angélica :.


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