A Lenda do Fio Vermelho por Ximena Noemí Ávila Hernández

Esta história começa assim …

Chegou o dia em que a menina se tornou mulher, o sangue das suas veias começou a banhar o seu ventre.

A mãe abençoa-a traçando no seu rosto um símbolo de celebração, ao mesmo tempo entrega-lhe uma panela de barro que no interior continha um novelo de fio vermelho. Este tinha sido feito e tingido por ela mesma com o seu sangue menstrual depois de recuperar os seus ciclos após dar à luz à menina.

Nesse dia especial, a mãe pediu à filha a promessa de desenrolar o novelo até o fim dos tempos, onde, de geração em geração, cada mãe iria ensinar a cada filha este legado, transmitindo assim o valor e responsabilidade com toda a linhagem anterior e posterior: “tudo o que tu vivas será gravado no fio vermelho e, portanto, será compartilhado com a árvore inteira, tudo que tu sofras sofrerá a árvore, tudo que tu sanes sanará a árvore.”

Então, a menina segurou com força a panela de barro entre as suas mãos, levou perto do seu coração e olhou para a mãe com olhos de amor e gratidão infinita, porque ela compreendeu que, além da vida ou da morte, o novelo de linha vermelha sempre ia mantê-la unida a todos os integrantes da sua árvore, especialmente aos úteros da sua mãe, sua avó e da sua filha.

No momento em que a menina aceitou com amor o novelo, a mulher sentiu que uma parte muito importante do seu trabalho como mãe estava completa. Ela sentiu uma grande alegria no seu coração, assim respirou e agradeceu ao Grande Espírito.

Há uma teia de aranha que une a todas as mulheres do mundo, dela nascem um milhão de fios vermelhos que unem de forma linear cada mulher com o seu anterior e posterior linhagem.

Este fio passa pelos úteros de mulheres e é tingido do vermelho rubi do sangue menstrual que embebe os seus úteros por dentro, assim, também saem fios dourados que mantêm os homens conectados à rede através dos úteros das mulheres.

Se juntamos todos os fios vermelhos do mundo veríamos uma Grande Teia de Aranha vermelha que representa a humanidade. Este fio leva e traz informação, jamais se parte, só cria nós como resultado da dor e dos conflitos e para ir sanando é necessário ir desfazendo nós.

Quando uma integrante renuncia as suas ancestrais, ou se sente excluída da sua linha vermelha, forma-se um nó de modo que o fio vermelho deixa de a nutrir, ela pode ficar doente ou sentir-se deprimida, sentindo-se  incompleta.

Quando uma mulher honra o seu fio vermelho, recebe e envia todas as bênçãos da árvore, e  essas fluem daqui para lá.

Segurar o fio vermelho com força é como dizer a si mesma: “Esta é a minha linhagem e daqui eu venho, eu recebo todo de minha árvore, o bom e o difícil, e eu aceito-o com amor.”

À medida que cada integrante da árvore vai sanando (homens e mulheres), o fio vermelho evolui na sua cor e adquire um brilho resplandecente que se irradia sobre o resto da rede.

Agora compreendes porque somos um?

Se te curas, curas a tua árvore, se curas a tua árvore, a consciência da humanidade eleva-se, por isso é de vital importância recuperar a consciência do fio vermelho que nos une a todas e a todos.

É muito importante, que de mãe para filha, se recupere a tradição ritual que celebra a menina quando torna mulher. Assim, cada menina poderá receber uma tradição que vai manter-se viva de útero para útero, e vai-se tornar ciente de que a sua menstruação simboliza a união com a linhagem matrilinear e assim também a possibilidade de trazer para a terra uma vida nova.

Esta tradição consiste em comemorar o momento em que a menina se torna parte deste fio vermelho e esse momento é quando a sua menstruação chega. Celebrar a menstruação é  celebrar a união matrilinear.

Quando vires nas tuas cuecas a primeira mancha de sangre significa que chegou o momento de receber o novelo de fio vermelho, chega o momento de cuidar dele como um tesouro precioso e de conservar-lo para que algum dia entregues as tuas filhas.

A madeixa do fio vermelho é uma metáfora que simboliza a união sanguínea que existe na nossa linhagem matrilinear. Manter viva esta união é celebrar os ciclos da vida, falarmos e reunirmos e transmitirmos informação valiosa sobre a mulher de mãe para filha, avó para neta, de tia para sobrinha.

… 

O fio vermelho do ciclo menstrual une-nos a todas as mulheres: nossas mães, avós, bisavós e todas as mulheres da nossa linhagem ancestral, até ao passado mais remoto das brumas do tempo.

Tu e as tuas antepassadas maternas sangraram cada mês para poder dar vida. Reconhece que sei a menstruação nenhuma podia ter dado à luz. És um elo de uma cadeia de gerações que começou antes do tempo e continuará até muito depois de teres partido.

Todas as mulheres estão unidas através da conexão profunda e visceral dos tempos de lua.

Por De Anna L’Am

Esta história foi inspirada na minha viagem a Bolívia, nos dias que estava prestes a menstruar. Quando olhava para o deserto, veio a minha cabeça uma série de imagens: tribos, danças, celebrações e ritos de mãe e filha. Foi muito bonito sentir que o rito da menarca descrito na história vivi eu mesma com minha actual mãe há centenas e centenas de anos atrás, em algumas das vidas que tive junto a ela.

Eu partilho estas palavras hoje porque eu sinto que elas podem inspirar muitas mulheres nesta jornada de cura que nunca termina. O meu desejo é sempre que com a recuperação das histórias desperte uma consciência adormecida da vida como um instante sagrado.

Desta história também nasceram as “Danças do fio vermelho”, danças tribais que estou a começar a compartilhar com as mulheres que frequentam as reuniões. Estas danças procuram despertar a consciência de irmandade e sororidade que nos leva a aquela alma tribal e comunitária que pertencemos desde o início dos tempos.

Eu espero que em algum momento dancemos juntas com o  fio vermelho.

Abraço-vos com amor

Ximena Noemí Ávila Hernández

Esta história nasceu das profundezas de minhas memórias uterinas, por isso, se copias no teu blog  refere a página desde onde obtiveste. Obrigada!

http://www.cantarosagrado.cl

Versão original – https://escuelacantarosagrado.wordpress.com/2016/02/14/la-leyenda-del-hilo-rojo/

Tradução por Caroluna Stargate​ e Isabel Maria Angélica​

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